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terça-feira, 9 de novembro de 2010

Ele fumava Hollywood - Parte 2

[...] Esqueceu por um instante do casamento do dia seguinte, só o que podia lembrar eram das brincadeiras de infância, das confidências de adolescentes, ali, naquele mesmo quarto, com a mesma garota que agora acendia um cigarro, sentada em seu colo. Fechou os olhos e sentiu a amiga soltando a fumaça da primeira tragada dentro de sua boca. Engasgou-se um pouco, o gosto forte e amargo da fumaça mesclava-se ao doce da boca que agora sorria diante das caretas que ela fazia. Os mesmos dedos ageis que mexiam na caixa, agora tocavam os seu corpo, rompiam a sua pele branca com as unhas vermelhas, sentia que seu corpo era como o interior da caixa - dominado - exposto as mais intimas sensações que nunca mais se repetiriam.
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Ficou por um tempo sentindo a água gelada lhe cobrir o corpo, era preciso tirar o cheiro de cigarro antes de voltar para casa, mas principalmente, tinha de afastar de si as mesmas lembranças que lhe foram ativadas naquela manhã. Cobriu o corpo com o casaco preto e quando ia sair do quarto lembrou-se do cartão em baixo da carteira de cigarros; pegou-o e ficou olhando por um instante - o que havia de diferente naquele homem? O que havia de novo que qualquer outro que ela já levara pra aquele quarto? - deixou o cartão sobre a cama e saiu sem olhar para o relógio, não tinha pressa naquela manhã. Sorriu - ele fuma Hollywood.
Na recepção, uma velha tão suja e estranha quanto o ambiente daquele lugar a olhava; entregou a chave a ela sem olhar nos seus olhos, pequenos, escuros e frios. - Volta amanhã? - não respondeu, a velha sabia a resposta, ela sempre voltava. Seguiu em direção a porta, ouvia o barulho dos homens jogando cartas, fumando, as mulheres absortas em sorriso cínicos. Soltou a maçaneta e voltou para a recepção - Eu vou levar, hoje! - a velha continuou inexpressiva, como se soubesse que um dia isso iria acontecer, o que a deixava irritada. As mãos secas e enrugadas seguravam um pequeno frasco transparente - Duas gotas já é o suficiente, mais do que isso e corre o risco de ser descoberta - sem agradecer ela pegou o frasco e saiu, agora com pressa, tinha de preparar o almoço do marido.

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