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terça-feira, 9 de novembro de 2010

Ele fuma Hollywood - PARTE 1

Uma fina camada de neblina acinzentada repousava delicadamente pelos objetos do quarto, enquanto parte dela ainda mantinha-se dissolvida no ar. Envolta pelo lençol amarrotado, a mulher continuava fumando, os olhos imóveis, indiferentes ao toque dos lábios - quentes pelo álcool - na epiderme.
- Deixei meu cartão embaixo da carteira de cigarros.
Terminou de pôr a gravata, saiu as pressas do quarto; a porta aberta permitia que a fina fumaça o seguisse até o final das escadas, onde misturava-se ao som das risadelas, aos burburinhos femininos e aos diálogos inúteis dos jogadores.
Quando por fim ela percebeu não estar mais sobre a cama. Uma fenda na parte superior da janela levava um feixe de luz que lhe tocava as pernas brancas e nuas. Enquanto sentia o incomodo causado pela aspereza do tapete, seus dedos passavam pelas letras brancas da vermelha carteira de cigarros - HOLLYWOOD.
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- Amanhã, nem mais um dia.
- E é isso mesmo, então?
- É. é sim!
- Sobe, vem aqui. Quero que a gente possa aproveitar teu último dia de solteira.
As escadas da casa não pareciam tão longas, mas eram... eram de uma angustiante continuidade, apesar da finitude de um único caminho. Subiu de encontro a amiga que lhe esperava diante do quarto.
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O cigarro parecia, assustadoramente, tão doce quanto o primeiro que pusera entre os lábios grossos, úmidos. Sorvia a fumaça para dentro de seus pulmões e a prendia, lutava contra si mesma, não podia soltar fumaça. Medo. Sabia que nela, entre as camadas dispersas no ar, no seu cheiro, nas suas características, ela lembraria do que não queria, do que pensava já ter esquecido. Mas não se mutilam as memórias, não há passado que se ofusque, nem mesmo fantasmas que permaneçam ocultos para sempre.
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Quando entrou no quarto, iluminado pelas pequenas aberturas das janelas, era como se nunca estivesse estado lá antes. - Senta, vou pegar uma coisa para nós. Na parte inferior de um armário, havia uma pequena porta cuja pequena chave foi girada lentamente, rompendo o silêncio do ambiente com o estampido da porta.
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Acabava de fumar o último cigarro, estava completamente perdida nos próprios pensamentos, tanto que não se dava conta da maneira como acariciava as brancas letras impressas no papel de um vermelho tão vivo quanto o da pequena chama ainda acesa sobre o cinzeiro. Quando suas memórias eram ativadas não havia tempo ou modo de fugir. Havia, ela, que simplesmente deixar-se envolver pelas névoas, nem sempre claras e contínuas, do tempo que passou.
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Ela olhava para o chão, enquanto a amiga abria a pequena caixa azul - Encontrei no antigo quarto do meu irmão, mas agora isso vai ficar comigo. - sorria como se contasse algo incomum; abriu a caixa, mudara a expressão facial, tinha no rosto um silêncio que constrangia a outra. Como se guardasse um segredo de si mesma ela tocou no interior da caixa, os dedos em movimentos ágeis, pareciam mais que treinados, mostravam-se autônomos, sem qualquer dependência de um corpo no comando, agiam quase como por instinto. Ela decidiu olhar para dentro da caixa, tirou o chão, aos poucos, do seu campo de visão, mexeu os pescoço lentamente. Fechou os olhos quando percebeu a aproximação da amiga...
- Já experimentou? - Não podia responder, apenas sentia o hálito da amiga cada vez mais perto. Deitou-se na cama e calmamente pegou a carteira de cigarros em suas mãos - HOLLYWOOD - antes que pudesse dizer alguma coisa suas mãos estavam entrelaçadas as de sua amiga[...]

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